Segue a saga do cão sem dono, com sua coleira arrastando e seu rabinho entre as pernas. Depois de desbravar por florestas negras, desertos escaldantes repletos de ignorantes, alienados, uma coisa e outra, a outra e uma e até as duas numa só, ele chega até o cidade dos Aleatoriamente sem noção. E já é recepcionado por um morador que logo diz: “Como você pode andar tão maltrapilho? Em que mundo vivemos!”. O Cão sem dono, obviamente, dá com os ombros, por se tratar claramente de um individuo aleatoriamente sem noção. Mal sabe ele por o que nosso herói passou, o que enfrentou e que caminhos percorreu para chegar até ali. Definitivamente, não vale a pena entrar na discussão, nem nos méritos da questão.
E as perguntas começam a surgir. “Meu caro colunista, você está mamado? Cheirou cola?” Não amiguinhos, não! Simplesmente o convívio diário com pessoas de classes sociais completamente opostas deixa indivíduos, de estereotipo socioeconômico parecido com o do cão sem dono, simplesmente indignados. E a indignação não é relacionada à discrepância existente em nosso país, pelo contrário, quanto a isso já estamos todos conformados e felizes. O que incomoda e em particular tira do sério este que vos escreve são julgamentos precipitados de pessoas de vidinha “a la” Malhação, sobre qualquer assunto relacionado à realidade do nosso pobre personagem sofrido e guerreiro.
Naturalmente o percentual de pessoas que não gostam de mim, necessariamente vai aumentar ao termino desta leitura. E você, se já não é, pode vir a ser mais um. Simplesmente porque, em geral, assuntos polêmicos têm de um dos lados, pessoas sem noção, senão dos dois. Entrar em detalhes, exemplificar com alguns casos, parece inevitável, por mais árduo e negro que seja, vamos lá. Quem aqui estuda em uma Universidade Pública e nunca ouviu um infeliz de uma Universidade particular soltar a a seguinte frase de que nós (e eu me incluo neste seleto grupo de pessoas com sérias dificuldades de cursar uma determinada graduação numa Universidade Pública) não temos um bom desempenho, porque não pagamos e logo não damos valor. Uma pessoa dessa talvez até teria um ótimo desempenho na federal, tudo depende de que tipo de cão sem dono ele é, digo, se tem pedigree. Muitos se dão muito bem, mas com certeza não precisam trabalhar, não tem contas para pagar e logo não tem preocupações extra universidade. Tudo isso influencia, mas evidentemente, isso não interessa para os moradores da cidadezinha supracitada. Ah, lembrei, muitas vezes esses moradores estão em uma universidade pública e falam tal asneira, não podíamos esperar outro tipo de comentário.
É válido ressaltar que criaturas alvo do tema deste texto aparentemente usam cabrestos. Não tem outra explicação para tamanha (Opa!) alienação quanto a assuntos tão delicados. Como por exemplo, conseguir R$300,00 seja para o que for. Para eles é simples, vai trabalhar, diriam os mais batalhadores e comovidos com a triste realidade de sua família bem sucedida. Mal sabe ele que o cão sem dono trabalha desde os 13 anos. Que paga contas em casa desde então e que sem sua renda, sua família fica sem luz, água, telefone ou deixa de pagar aluguel, condomínio e outras continhas quaisquer. É verdade, existem pessoas que não trabalham para ser lazer próprio. Siiiim meu caro, adolescentes com alto nível de responsabilidade dentro do lar. Não, não... o papai não paga tudo. Muito pelo contrário, em muitos casos o pai é desempregado, alcoólatra e até mesmo já faleceu. O queee?? Existem famílias em que o HOMEM da casa é uma MULHER ou então um adolescente com responsabilidades de adulto. Sim sim.. seja bem vindo ao mundo real! E as vezes, para piorar, esse pseudo homem da casa ganha menos que sua mesada. Ou então menos que esse dinheirinho que você consegue facilmente de seis em seis meses para seu próprio lazer.
Por fim, seja você sem noção ou não, ou então, se um dia já foi um e está envergonhado. Perdoe-me pela franqueza, mas por favor, antes de soltar qualquer asneira, a respeito de qualquer assunto aleatório que você não tem pleno conhecimento, pense bem e fique quieto. Pior que tapas na cara, é você batalhar como um cão sem dono, com sua coleira arrastando e seu rabinho entre as pernas e ouvir um aleatoriamente sem noção jogar no lixo todo o seu esforço por que para ele tudo sempre foi mais fácil. Todos batalham, todos lutam, alguns tem mais facilidades, outros não. Mas todos tem seus méritos e ninguém tem o direito de julgar ou falar qualquer coisa a respeito do outro. Principalmente se você não vive a realidade deste alguém.
E segue o cão sem dono, com sua coleira arrastando e seu rabinho dentre as pernas...