Depois de algum tempo sem exercer a prática da escrita, estou há alguns dias esperando o momento certo para iniciar esse nobre processo de transformar pensamentos em palavras. As ideias vem surgindo e sendo processadas, mas faltava o momento certo, faltava a emoção, porque não basta escrever, é preciso colocar o coração e a alma na ponta dos dedos. Sempre pautei meu processo de desenvolvimento textual nesse critério, o de ser preciso produzir algo, e não simplesmente escrever por si só. Já vinha trabalhando com a proposta para o texto que serviria de abre-alas para essa nova fase da minha vida de blogueiro, eis que, ouvindo uma rádio qualquer, ouço o locutor divulgando a enquete do dia: “Que tipo de ato você sabe que é errado e mesmo assim faz?”. ‘Neologisando’ e ‘jargonizando’ minha primeira coluna nesse espaço virtual, era a gota d’água que eu precisava.
Confesso que chega a ser difícil verbalizar as emoções quando me deparo com esse tipo de situação. Como assim algo que eu sei que é errado e mesmo assim faço? Se é contra as normas, se é contra o senso comum, eu não faço, simples assim. Tenho pavor de uma famigerada frase do meio jurisdiques: “Nem tudo que é legal é moral!”. Ou seja, as favas com o caráter, com a honra e com os valores ensinados por meus pais. Em uma rádio em que eu fosse o radialista, mudaria a pergunta e lançaria para os ouvintes a seguinte enquete: “Quais são os atos de corrupção que você executa com conhecimento de causa?”. Sim, corrupção! Porque se você utiliza o acostamento para passar mais rápido por um congestionamento, se você utiliza a faixa da direita para furar a fila da conversão a esquerda, se você forja notas fiscais com médicos para lançar na declaração de imposto de renda, se você tem TV a cabo pirata, se seu Windows é pirata, se você utiliza varal na sacada em um condomínio em que essa prática é proibida, você faz parte do grupo de pessoas corruptas que engloba a maior parte (senão toda) população brasileira e também mundial. Você não é nem um pouco diferente dos parlamentares que vos representam em Brasília, pois um deputado, senador ou integrante do poder executivo, nada mais é que um brasileiro no poder, nada mais é que alguém fazendo um acordo com o novo patrão para realizar o registro em carteira só depois que acabar o auxílio-desemprego. Isso tem nome, trata-se de uma doença social tatuada no íntimo do brasileiro, trata-se do jeitinho brasileiro, ou como eu gosto de chamar, de Corrupção Institucionalizada.
Institucionalizar algo é dar o carácter de instituição, tornar oficial, estabelecido, arraigado, com raízes profundas, fixo. Ou seja, existe uma cultura enraizada na sociedade brasileira de que independentemente de ser legal ou não, moral ou não, justo ou não, se me trás qualquer tipo de benefício, eu vou fazer. Ao que parece existe uma necessidade sistêmica de ser o primeiro em tudo, ser o primeiro a chegar ao semáforo, ser o primeiro a fazer a conversão a esquerda, a sair do congestionamento, a ter as roupas secas, ou mesmo, ser aquele que consegue economizar mais, ganhar mais, ter mais vantagens. É imperativo que tenhamos em mente que a minha pressa de chegar em casa, não é mais importante que pressa de outros cidadãos. Que o meu atraso para bater o ponto, não é mais importante. Que não sou mais relevante para a sociedade que meu vizinho e por isso posso assistir qualquer canal fechado sem pagar. Que sou simplesmente mais um dentro de uma sociedade complexa e em constante movimento. O errado é errado, o imoral é imoral, se eu não gostaria que fizessem comigo, eu não vou fazer para outrem. Simples assim.
Mas o que é simples, não é necessariamente o mais fácil, o mais conveniente, o que me trás mais vantagens. Esse paradigma extremamente egocêntrico é a pilastra de sustentação de todo o processo de corrupção da sociedade brasileira. Passar a olhar para o próximo como um igual e passar a pensar suas ações como parte de um todo, é agir com bom senso, é prezar pelo senso comum. Será que é tão difícil assim analisar se o que você está fazendo é correto ou não? Ou a sociedade está tão doente que a maioria das ações não são necessariamente atos de corrupção conscientes, mas sim ações de total e absoluta falta de noção de senso comum?
Onde moro, por exemplo, é obviamente proibido passear e deixar seu bichinho de estimação fazer as necessidades em áreas consideradas de uso comum. Tal regra se deve ao fato de que se todos os moradores executarem tao ato ao mesmo tempo, o consequência seria catastrófica para a saúde e o bem estar de todos. Pense, são duas torres, com 25 andares e 6 apartamentos por andar. Um total de 300 apartamentos. Se 300 cachorros usarem a área comum para fazer seu xixizinho, ficaria extremamente agradável o ambiente como um todo, não é? Isso parece óbvio! Principalmente quando se veem crianças brincando na grama nos sábados a tarde. É claro, menos para meus vizinhos, que continuamente, diariamente, e mesmo com a presença de placas que alertam a respeito dessa proibição, acham que passear com o seu cachorrinho na área comum e deixá-lo fazer suas necessidades por ali é absolutamente normal. E é ai que entra a noção de senso comum, o famigerado bom senso. É tão complicado assim pensar nessa questão? Se eu posso, todos podem, e se todos podem e resolverem fazer isso, o que aconteceria? Juro, é difícil entender, especialmente depois de ter tentando alertar alguns vizinhos a respeito e não ter tido a recepção esperada.
É falta de noção? De caráter? De moral? Alias, o que é moral? O conceito de moral, amoral e imoral confunde tudo e todos. Afinal, alguém criado em um ambiente altamente contaminado por atos de corrupção terá um conceito de moral diferente, e consequentemente, esse indivíduo não é imoral, ele só não sabe o que é moral, tornando-se assim um ignorante no assunto, um amoral. Seria esse o esteriótipo tupiniquim? As crianças veem crescendo em um ambiente tão toxico e encardido de ações egoístas, corruptas e imorais que chegam a maioridade totalmente desprovidas de um senso mínimo de comunidade, um noção mínima do que é certo ou errado ao ponto de não ter discernimento a respeito de seus atos e ações? Seria essa a nossa triste realidade?
O estimado leitor deve estar pensando: “Quem é você para apontar o dedo para mim?”. Minha intenção ao dissertar a respeito de tema tão polêmico não é posar de moralista, de senhor honestidade ou qualquer coisa do gênero, minha intenção, por mais utópica que possa parecer, é tentar despertar em você a sensação de que podemos fazer diferente, despertar o sentimento de que é melhor ser um bom exemplo para nossas crianças, é melhor despertar neles o quanto antes a honestidade, a gentileza, a empatia. E sim, eu faço diariamente o meu melhor possível para tornar o ambiente mais saudável para todos.
Entretanto, considerando o estágio atual em que se encontra a sociedade brasileira, tenho total ciência do quão difícil é realizar esse processo de mudança de comportamento. Eu passei e venho passando por isso. É quase que uma desintoxicação que em meio ao ambiente extremamente tóxico, fica ainda mais complicada de ser realizada. Contudo, não podemos seguir sendo reféns de um ‘modus operandi’ suicida. Sim, suicida, porque uma sociedade que se auto sabota, que não consegue criar um ambiente saudável de convivência tem o seu destino fadado ao fracasso. Se queremos qualidade de vida, se queremos um pais desenvolvido, isso passa obrigatoriamente por uma mudança radical de comportamento por parte de todos. Do contrário, continuaremos sendo o pais dos corruptos que sonham em ter políticos honestos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário